Sétima arte ou veículos suplementares sem tração?

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Veículo suplementar e sem tração que tem que ser engatado a outro veículo – é esta a definição da palavra “trailer” que não está associada a cinema. No entanto, decidi escolhê-la por uma simples razão: Atualmente, os trailers também parecem não estar associados a cinema.

 Digo isto de forma tão frontal porque estive a ver cerca de 20 trailers de filmes lançados entre 2017 e 2018. Coloquei-os sob 2 perguntas:

São demasiado reveladores?

Existe narração exagerada?

Sem dúvida que há mais pontos de interesse, mas estes pareceram-me os que, para leigos como eu, se revelam mais fáceis de analisar. De todos os 20 trailers, destaquei 3 como promissores de bons filmes e que, de facto, cumpriram o objetivo: fizeram-me querer ver o filme em questão.

Infelizmente ou não (cada um saberá certamente do que gosta) a maior parte dos trailers peca quanto à divulgação excessiva do filme: já sabemos o que vai acontecer, já sabemos como se desenrola a história e, erro crasso acima de todos os outros, até se pressente como será o final da película. Quanto à narração exagerada há muito que se lhe diga. Um filme narrado tem tanto potencial para ser um bom filme como outro qualquer. É uma questão de gostos. Porém, um trailer narrado excessivamente contribui para uma revelação da história ainda mais amplificada, e tira algo que é crucial a todos os espetadores: o espírito crítico. Com um exemplo torna-se mais fácil explicar:

“Bella Brown, não havia nada de normal quanto a esta rapariga. Ela cresceu no mais peculiar de todos os mundos peculiares. Só ela e os seus livros.”

 Este é um excerto do trailer “This Beautiful Fantastic” e é narrado no imediato início do mesmo. É possível traduzir esta citação para uma bem mais simples: Bella Brown é como X.

Ora, com isto surge uma imediata consequência: é retirada a possibilidade de o espectador imaginar a Bella como sendo um Y, ou até mesmo um Z. O trailer formatou uma personagem de uma forma demasiado restrita quando o objetivo do cinema é precisamente o contrário: fazer abrir horizontes e deixar quem vê fantasiar.

No fim, Bella Brown pode realmente ser X, e isso é mais que aceitável, mas não foi o espectador que chegou a essa conclusão, foi sim o trailer.

Felizmente, ainda há trailers muito bons e agradavelmente pouco reveladores, e para o demonstrar trago ao de cima um realizador que tem uma carreira admirável: Alejandro González Iñarritu. Fui rever 3 trailers de 3 longas-metragens (que já tive o prazer de ver) do cineasta mexicano:

Babel, 2006

Birdman, 2014

The Revenant, 2015

Todas representam narrativas muito diferentes umas das outras: uma entrelaça histórias de pessoas que não se conseguem compreender, outra descreve um ator em decadência e a última conta a história de um sobrevivente. Com filmes tão diferentes uns dos outros, é sempre agradável ver equilíbrio nos trailers que os representem e é assim que se percebe o bom olho de Iñarritu. A parte que mais valorizo é a pouca informação sobre a narrativa que nos é dada. A pergunta Como é que isto se vai desenrolar? surge, e com ela surge a vontade de ver o filme.

Também é de destacar a banda sonora que, de forma subtil, vai ao âmago das vivências das personagens e traz tudo cá para fora. Um belo exemplo disto é o trailer de The Revenant onde não há espaço para músicas pseudo inspiradoras que afastam a personagem do nosso foco, mas sim uma sonoridade compassada que nos aproxima a nós, espectadores daquilo que as personagens estão a experienciar. Por fim, não há narrativa exagerada em nenhum dos trailers, abrindo-se assim a liberdade a qualquer um de imaginar as personagens e os seus rumos. Os horizontes não são fechados e o filme não fica limitado por descrições confinantes. Assim sendo, há espaço para nós, espectadores, imaginarmos e concebermos rumos, por mais descabidos que sejam.

Há espaço para a nossa vontade e para a nossa imaginação num mundo que às vezes limita demasiado os sonhos de toda a gente. Numa indústria que cresceu tanto nas últimas décadas, é desapontante compreender que o crescimento monetário não acompanha a vontade de imaginar. Sons altos, imagens explosivas e, acima de tudo respostas imediatas, ainda que ocas, estão na moda. Porém, o dever de um trailer não é apresentar todas as respostas. Um trailer pergunta, um filme responde, e é com boas perguntas que os trailers podem voltar a ter alguma representatividade na 7ªarte.

Afinal de contas, ninguém gosta de filmes de 2 minutos e 20 e tal segundos.

Marcações: JOvens, Valores, Cinema

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