Minutos pautados de impacto

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Este artigo teria mais piada se eu tivesse 80 anos. Era mais sábia e, por consequência talvez emanasse um pouco mais de interesse. No entanto, tenho ¼ da idade de sabedoria, só espero não ter ¼ do interesse, prefiro ter a casa toda.

No outro dia ouvi um colega falar de uma música dos alt-J, mas não falava como mero diálogo. Nada disso. Havia uma paixão efervescente na forma como ele descrevia a música que havia escutado. Como quem falar de amor, ele falava da forma como uns minutinhos compostos por uma banda inglesa o faziam sentir em casa, o faziam feliz. Aí ocorreu-me, assim do nada, que somos feitos de impacto.

Passo a explicar.

As músicas impactam a disposição do meu amigo. A disposição dele impacta quem o rodeia. Quem o rodeia impacta outros rodeantes. Quem rodeia os rodeantes impacta outros tantos. Noutros tantos está o Joe. O Joe hoje foi impactado e olha, apeteceu-lhe compor uma peça. O Joe é dos alt-J. O Joe impactou o meu amigo.

Sei que é uma lengalenga foleira e abrangente, mas o mundo funciona muito assim, em cadeia. Acredito que os artistas vivem desse impacto, sem o saber. Tal como nós, pessoas não tão poéticas (um dia talvez seja artista, um dia) vivemos com esse impacto, sem saber. Arrastamo-nos, falamos, ouvimos e espalhamos e raras devem ser as vezes em que pensamos Que impacto deixei?.

Ou melhor O que é que me impactou?

Por esse mundo fora há milhares de fotografias, peças de teatros, sinfonias e vídeos. Há biliões de frames e pautas. Há uma infinidade de ideias no papel e ideias no realismo. Há tanto de tanta coisa que se torna desafiante selecionar no mundo da arte da música aquilo que mais me tem impactado ao longo dos anos. Em tantos artistas e estilos apresento-vos três momentos (não somente músicas) que me marcaram por razões que, à priori são mínimas, mas gigantescas em impacto.

Max Richter recompõe as 4 estações de Vivaldi

Definitivamente, não gosto da primavera. Gosto de vida, gosto de natureza, mas a primavera é foleira. Sempre gostei bem mais do inverno e dizia isso mesmo Detesto a primavera, adoro o inverno. 

Até que, por intermédio de um algoritmo do youtube me aparece este vídeo no feed de recomendações. Cliquei, como quem não quer a coisa e posso dizer, com todas as certezas que me apaixonei. Acho que acredito em amor à primeira vista, ou melhor, amor ao primeiro tom. São 40 minutos de uma adaptação extraordinária de Max Richter (compositor alemão de peças de Arrival e Black Mirror) às famosíssimas 4 estações de Vivaldi.

A partir do momento que me apercebi da grandeza do que ouvia, prometi a mim mesma que um dia teria que aprender a tocar um instrumento de orquestra e que jamais diria em voz alta detestar a primavera. Por agora, tudo em linha.

Vaka de Sigur Rós

Frequentei um grupo de teatro infantojuvenil durante vários anos. Antes de pegarmos em guiões e rumarmos a ensaios, a minha encenadora na altura fazia sempre exercícios de relaxamento e concentração connosco. Um deles era escutar uma música, fechar os olhos e movermo-nos conforme ambicionávamos, sem medo de julgamentos e olhares. Não havia vivalma para julgar, porque fazíamos todos o mesmo.

Um desses dias, surge esta música dos Sigur Rós. São uma banda islandesa que, na maior parte das vezes canta em linguagens abstratas e desconhecidas. É impressionante como, sem perceber nada da letra, damos valor  à melodia que se escuta. Foi isso que fiz com este Vaka que me tocou profundamente e me ensinou que mesmo aquilo que não se percebe é munido de beleza.

Banda sonora de Babel de Gustavo Santaolalla e Ryuichi Sakamoto

Tinha 13 anos quando vi Babel de Alejandro González Iñárritu pela primeira vez. Estava num acampamento de grupos de jovens, sentada no chão, entre carpetes e almofadas. Já falei deste filme noutro artigo e a razão prevalece: é sem margem para dúvidas dos meus filmes preferidos por múltiplas razões. No entanto, hoje trago somente uma: foi com esta longa metragem que eu comecei a apreciar bandas sonoras e trabalhos orquestrais.

O link transporta-vos para a música que passa nos créditos finais e foi composta por dois génios: Ryuichi Sakamoto e Gustavo Santaolalla. Um japonês e um argentino que fizeram os olhos de uma pré-adolescente tuga brilhar e que a influenciaram de forma soberba.

São aproximadamente 60 minutos de memórias e de alguma nostalgia, uma hora de verdadeiro impacto e quer eu tenha 13 ou 80 anos é mesmo possível pegar nestes links, nestas músicas e nestes momentos compartimentados e dá-los um todo.

Compartimentados num todo? É isso, tal e qual como uma casa inteira, mesmo como eu gosto.

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