A arte de divagar

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Captei a vossa atenção? Boa, continuemos! (Aliás, esta pergunta foi um quanto desnecessária porque se estão a lê-la então claramente estão a providenciar um pouco da vossa atenção a mim, que me apresento sob a forma destas palavras aqui colocadas de forma certeira mas numa aleatoriedade paradoxal.) Ainda aqui estão? Excelente, fico agradecida.

Este é o parágrafo que vocês estão agora a ler porque provavelmente supõem que eu apresentarei aqui a razão clara e concisa que justifique o tema e o título, e à medida que continuam a ler aqui estou eu, em processo contínuo de captação de um índice de atenção um quanto confuso porque no meio de tanto palavreado não está a surgir qualquer definição. Eu também tinha intenções de providenciar esclarecimentos, a sério que sim, mas trata-se de uma mui essencial missão esta de vos mostrar como é fácil escrever, escrever e escrever e no fundo, dizer muito pouco.

Ou nada.

Ainda assim, dizer nada faz-me um pouco de comichão porque o ato de dizer precisa sempre de algo mais, ou seja existência. Ora, assim sendo, dizer nada é uma expressão ilógica, mas com um aroma poético, daí a utilização da mesma. Isto de ser poético tem muito que se lhe diga, e eu bem que o posso fazer porque me estou a dar ao luxo de divagar. Ainda assim pretendo ser interessante daqui a uns momentos, não se preocupem.

Agora a sério.

Divagar é mais comum no nosso dia-a-dia do que aquilo que imaginamos. Trata-se do ato de comunicar sem um objetivo claro e de dispersar por entres linhas que fogem ao tópico inicial. Em composições naqueles testes de português é fácil que isto aconteça, em apresentações orais também e, por último mas não menos importante em conversas casuais que temos com amigos, família ou colegas. Divagar é comum e todos o fazemos, ou em maior ou menor quantidade.

No entanto, perguntamo-nos sempre Por que o fazemos?.

Muitas das vezes divagamos porque estamos ansiosos quanto ao tema que abordamos. Se calhar não o conhecemos assim tão bem, se calhar até sabemos uma ou outra coisa sobre o mesmo mas não o suficiente para escrever 750 palavras sobre vantagens e desvantagens, sobre consequências e causas. Os estudantes dominam esta arte de divagar melhor que ninguém: afinal de contas, quem nunca colocou palavreado frenético e desajeitado nas suas composições? Ou melhor, quem nunca colocou palha? Temos que chegar às 750 palavras e só temos 700? Não é problemático, basta ligar a imaginação e começar a escrever.

Divagar é giro, tem a sua graça, é provavelmente o método preferida do Eça de Queirós e pode ser extremamente útil em momentos de aflição para composições. Não é que nos dê uma boa nota, mas pelo menos dá-nos confiança para tal. Ainda assim, não divagar faz-nos ser ouvidos, faz-nos ser sérios e, acima de tudo, faz-nos ser objetivos.

Por isso, se achas que na escola tens colocado mais palha nos textos do que no presépio, começa por pensar objetivamente no tópico para o qual tens que escrever e vai repetindo para ti mesmo esse tópico à medida que o comunicas. No fim, quando estiveres a ler o texto pergunta-te a ti mesmo O tema X está abordado ao longo de todo o texto?.

Acredita que assim as tuas composições vão ficar mais interessantes e, quem sabe, as tuas notas podem subir. Se isso não acontecer, não te preocupes. Eu já fiz o ensino básico há algum tempo e acabei de escrever um artigo sobre divagar à medida que ia divagando.

Há sempre esperança para nós, e se não houver?
Pelo menos há palha.

 

Marcações: Escola, Livros, Amigos, Testes, Tempos Livres, Escrever, Criar, Divagar

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